Esta foi a história que me motivou finalmente a abrir este blog!
Desde Setembro que tenho feito viagens semanais para Lisboa, nos comboios da CP. E todas as semanas acabo por ter histórias para contar sobre as viagens!
A história desta semana prende-se com a viagem de regresso a Coimbra. Mais uma vez cheguei à estação de Santa Apolónia, ainda não eram 14h, para apanhar o IC das 15h30! Esganada de fome, lá fui comprar o bilhete e depois dirigi-me, ao "sítio do costume" para almoçar aquele fantástico arroz de pato por 2.5€ (quem diria! =P) aquecido na hora, e comido à colherada num qualquer banco da estação, "sabe a pato"! ;)
Já perto das 15h entrei no comboio, na que considero, ultimamente, a minha 3a casa: a carruagem-bar! Tem luz, tem sofás, tem mesas! É espaçosa e tem-me dado um jeitão para estudar! Como entro na 1a estação tenho sempre o meu sofá de eleição, que é o que dá para pousar a minha, já típica, malinha de rodas sem ocupar o lugar, se mais alguém se quiser sentar (afinal de contas, não sou dona daquilo, não é?).
Pronto, entro, pouso as coisas, saco dos apontamentos e começo a ler Sociologia da Farmácia (imaginem o interessante da coisa...). Mesmo antes do comboio arrancar começam a entrar passageiros e entra um senhor que me chamou a atenção! Neste momento metade de vocês está a pensar que devia ser um jeitoso qualquer... mas não, não era!
O senhor dirigiu-se ao balcão do bar, e começa a falar relativamente alto com o empregado "O senhor volta no 530? Ah, então vamos fazer companhia um ao outro! É, eu vou ao Porto mas volto logo de seguida!", enquanto lhe dá a cerveja que o senhor pediu, o empregado de bar lá vai respondendo contrariado à conversa, e o outro acrescenta "é que eu sou muito pobrezito mas não sou mal-educado, nem mau!". Curiosa com tal personagem, levanto os olhos dos apontamentos e vejo quem estava a falar: sapatilhas, calças verdes tipo fato de treino numas pernas muito magras, um largo casaco castanho claro de plástico a imitar cabedal ou algo assim, cabelo ainda castanho mas já a escassear nalgumas zonas. Voltei a concentrar-me e passado um bocado ouvi o senhor dizer "vou perguntar aqui a esta menina se não se importa que me sente no banco também", veio ter comigo e educadamente perguntou-me se se podia sentar. Com o meu consentimento lá se sentou e começa a falar comigo "sabe menina, é que eu hoje faço 49 anos!" e sorriu, um sorriso bastante desdentado, "49 primaveras! e se Deus quiser ainda hei-de fazer mais!". Dei-lhe os parabéns e regressei à leitura (afinal de contas já estava habituada a partilhar aquele meu banquinho com outros passageiros, mas sempre consegui estudar à mesma).
Indiferente à minha concentração ele contínua "hoje vou ao Porto! Vou lá comprar mercadoria, para depois voltar e vender! Veja lá a menina, a última que comprei gastei 110€ mas quando a vendi ganhei 180€. Desses, o lucro já fui depositar no banco, o resto trago aqui para comprar mais, tenho de fazer pela vida, sabe.." e eu ia acenando, sorrindo, dizendo uns "sim, tem de ser.." (confesso que no inicio não fui lá muito amistosa... estavam-me a tirar a concentração!). O que é certo é que o senhor continuou a falar e a pouco e pouco eu amoleci, senti-me até curiosa pela vida desta pessoa tão simples que ali se mostrava tão feliz, por hoje fazia anos e tinha dinheiro para conseguir viajar até ao Porto.
Contou-me histórias! Contou-me que era Benfiquista até morrer ("ai a menina é de Coimbra? Pois, olhe, o Académico perdeu 4-0 com o Benfica!" ao dizer isto mostrava-me 4 dedos no ar, 4 dedos com as unhas amareladas, meios tortos, ásperos... e continuava "disseram-me que o Benfica vai ganhar o campeonato este ano! Já o Académico está em último, nunca ganha nada! Se bem que o árbitro lhe roubou um penálti, senão o Benfica só ganhava 3-0, mas também estávamos em casa, tínhamos de ganhar!"). Contou-me que já tinha ido a Coimbra ao Hospital, tinha pus num ouvido e "a médica, que era uma senhora muito boa, queria-me operar mas eu não deixei! vim antes para Lisboa, já tinha comprado o bilhete de vinda e não podia perder a viagem que depois não tinha dinheiro para voltar!".
Contou-me que sabia que em Coimbra havia 2 hospitais, "aquele dos estudantes" e "o dos cancaros! Eu sei porque já fui camionista e ia lá levar seringas! Como é que ele se chama, menina?"
Contou-me que também já trabalhou nas obras e uma vez o médico descobriu um quisto benigno no rim "que é aqui atrás! e ele palpou e eu senti assim uma bola! doía-me... o médico disse-me que aquilo devia ser vigiado de 6 em 6 meses, mas já passaram 10 anos e eu nunca mais lá fui! Sabe menina, é que fosse benigno ou não, ele ia-me querer tirar! E eu não quero que me abram o rim todo, porque se morre quando há cirurgia ao rim!". Lá lhe expliquei que ele devia fazer o que o médico diz, que não era verdade que se morria por a cirurgia ser ao rim... Expliquei-lhe também que, ao contrário do que ele pensava, as médicas também eram de confiar, não eram só os médicos, isto porque ele me disse que se fosse uma médica ele não deixava, que "elas não estudam tanto como os médicos".
Passou o revisor. Contou-me que a reforma dele quase que não chegava para o mês... que uma vez ia para Pinhal Novo de comboio e adormeceu, acordou com o revisor "que era meu amigo, porque já me conhecia que eu viajo muito" a dizer-lhe que já tinham passado a paragem e que o que ele quis fazer era saltar do comboio, ou meter-se a frente dele: "deixei passar a estação, não tinha dinheiro para voltar para trás, nem para comer e dormir em mais lado nenhum... não havia solução..". Contou-me como o revisor disse para ele não se preocupar, fazia a viagem até ao fim, jantava com ele (revisor) e voltava no dia seguinte à sua guarda e não pagava a viagem. Contou-me como o revisor não o deixou dormir ao relento e ofereceu-lhe a 2a cama do quarto dele da pensão, para o senhor passar a noite. Contou-me como nunca se esqueceu desse gesto!
Entre as várias histórias eu lá lhe dizia "vá, agora vou estudar aqui um bocadinho, já falo consigo outra vez", ao que ele comentava "por isso é que dizem que Coimbra é cidade de estudantes!" Enquanto eu estudava, ele saía dali para ir algures fumar um cigarro, e das 3 vezes sentaram-se outras pessoas naquele "meu" banquinho! E nenhuma dessas 3 pessoas me dirigiu a palavra antes de se sentar. Mais uma vez, eu não sou dona daquilo, mas a mim sempre me ensinaram que se deve pedir licença. Bem que dizia o outro "eu sou pobrezito mas não sou mal-educado" e como tinha razão, quando comparado com pessoas que vinham da carruagem de 1ª classe...
Marcou-me o senhor que é benfiquista, já foi camionista e trabalhou nas obras, já teve pus num ouvido (o que o deixou a falar alto), um quisto benigno num rim, 3 crises de epilepsia ("melhor do que ter ataque cardíaco, que o meu cunhado morreu ao 3º. Por isso é que eu não ajudo a INEM, demoraram 1h a aparecer e ele morreu..."), já viajou muito na CP, já não teve dinheiro para comer e voltar, já fez um amigo para a vida num revisor! O mesmo senhor que não tem dentes, usa roupas velhas num corpo magro e cansado e que tinha mais rugas do que os meus avós. O mesmo senhor que hoje fazia 49 primaveras e que sorria por estar ali!
Antes de me ir embora, deixei um queque pago no balcão do bar para quando eu saísse em Coimbra o empregado lhe dar da minha parte, com o desejo de um óptimo aniversário! E antes de sair do comboio, fiz questão de lhe ir dizer adeus, e desejar um bom Natal!
A ti, que hoje me marcaste, desejo-te ainda que continues a ter sorte na vida: a sorte de saberes como te desenrascar, a sorte de encontrares pessoas que te ajudem, a sorte de seres um contador de histórias e de continuares a marcares pessoas!
Desculpem a maçada desta história mas cheguei a casa cheia dela e quis partilhar... Prometo que da próxima conto aventuras mais giras, como a de quando encontrei a irmã da Maria, a de quando entrei no comboio à Indiana Jones, a dos senhores do Entroncamento, e todas as que vierem daí para a frente!
Boas viagens para todos!
sábado, 12 de dezembro de 2009
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